Yankee Hotel Foxtrot – Um álbum com algo para nos contar. E com uma relação bizarra com 11/9

10 anos. Como o tempo passa rápido. Pessoas estavam seguindo a sua rotina, a vida prosseguia, em sua calmaria agitada. Tudo normal. Até que a tragédia ocorreu e o mundo parou.

A história todos já sabem de cor e salteado: 4 aviões, 2 prédios, 1 base militar, vários terroristas, milhares de mortos, alguns heróis anônimos, cenas desesperadoras e um mundo em uma incomodante sensação de desamparo. Foi um choque. Sim, todos já sabem de cor e salteado. Ok, ok, morreram mais pessoas nas guerras do Iraque e do Afeganistão que no WTC, assim como morreram mais pessoas esse ano de fome pelo mundo que nesse episódio. Verdade. Mas vou citar apenas o WTC, ok? Bom, de qualquer forma, evitarei discutir sobre o assunto, já que o blog se chama breakmusical. Me contentarei em falar sobre um álbum peculiar, que de certa forma, tem algo à nos ensinar: O Yankee Hotel Foxtrot da banda Wilco. Ah, só pra constar: Esse álbum é considerado por muitos da crítica especializada, um dos melhores álbuns da década passada. É, e na grande maioria das vezes está no Top Five. Não é qualquer coisa não.

<Parênteses> Semana passada, essa mesma banda liberou por streaming o seu álbum ainda não lançado The Whole Love pelo prazo de um dia. Você aproveitou a oportunidade?

Voltando dez anos no tempo, em 2001, Wilco já tinha uma base de fãs sólida e era de certa forma aclamada pela crítica. Com um som considerado country alternativo, a banda estava relativamente bem. O problema era o álbum que eles pretendiam lançar: O Yankee Hotel Foxtrot. A gravadora Reprise Records, subsidiária da Warner Bros. e responsável pela banda, tinha decidido que o álbum não tinha “apelo comercial suficiente”, e anulou o contrato de gravação com o Wilco. Sim eles foram literalmente expulsos da gravadora.
À pesar do tamanho do problema, eles conseguiram ganhar os direitos sobre as músicas desse álbum e prosseguiram como banda independente. Depois desse episódio, ficou decidido que o álbum seria lançado em 11 de setembro de 2001.
Claro que a desgraça da banda ainda não havia terminado: Semanas antes do lançamento, o álbum vazou na internet e as suas músicas começaram a ser baixadas ilegalmente (em época de internet lenta, em 2001!). A banda reagiu a esse evento atrasando o lançamento oficial do álbum, e disponibilizando-o por streaming gratuito em 18 de setembro. Resultado: mais de 50000 cliques foram contados no site da banda naquele dia, oito vezes mais que a média diária. Frisando: em 2001, época de internet ultra-rápida, feita por cabo óptico.

Depois desse episódio a banda se viu satisfeita: A aprovação era geral e o álbum foi bem aceita pela crítica especializada. O irônico nessa história toda é que uma gravadora, a Nonesuch Records, subsidiária da Warner Bros., gostou do som da banda e resolveu contratá-la.
Depois disso, o álbum foi lançado em  23 de abril de 2002, e as suas vendas alcançaram 55,573 cópias na primeira semana, chegando à 590,000 cópias mais tarde.

O que aprendemos com o episódio: Álbuns boníssimos como o Yankee Hotel Foxtrot beiraram à não existência graças ao pensamento de que “tudo deve dar lucro”. Revoltante. E o mais irônico de toda essa história é que uma subsidiária da Warner Bros. expulsou a banda para depois ser contratada por uma outra subsidiária dela mesma. E o final da história você já sabe: Sucesso de vendas e crítica. E claro, muito lucro.

Mas aí você se pergunta: O que que isso tem à ver com o ataque de 11 de setembro, além da data de lançamento? É aí que eu entro mais nas músicas. E nas suposições. Desculpa se esse post ficar com cara de tablóide. É óbvio que eles não premeditam os ataques, mas as suas letras são realmente sinistras quando interpretadas de uma certa forma. Informações largamente copiadas usadas de  http://sweetteapumpkinpie.com/2011/06/15/feature-yankee-hotel-foxtrot-%E2%80%94-wilco%E2%80%99s-accidental-soundtrack-to-911-and-its-aftermath/

Comecemos com a música “Jesus, etc”, analisando parte de suas letras:

“Tall buildings shake
Voices escape singing sad sad songs
Tuned to chords strung down your cheeks
Bitter melodies turning your orbit around

Voices whine
Skyscrapers are scraping together
Your voice is smoking
Last cigarettes are all you can get
Turning your orbit around”

É, sinistro. Agora vamos  para a “Ashes of American Flags”. Só pelo nome já dá para imaginar alguma relação caótica com os Estados Unidos. Uma parte de sua letra está aqui:

“I would like to salute
The ashes of American flags
And all the fallen leaves
Filling up shopping bags”

Fallen leaves = podemos relacionar com dinheiro caindo, queda do dólar, queda da bolsa de valores, etc.
Filling up shopping bags = podemos relacionar com o “Americanos, vão as compras!” de George W. Bush

Ah é, não posso esquecer de citar: A música vai terminando aos poucos com um barulho estático acompanhado de sirenes e alguns sons caóticos. Como se a música entrasse em fora de sintonia.

Bom, em referências à guerra que viria a surgir, podemos ainda citar a “War On War”, onde o vocalista Jeff Tweedy repete várias e várias vezes: “It’s War on War”, e dá de um solene aviso:

“You have to lose
You have to lose
You have to learn how to die
If you want to want to be alive.”

Em relação aos desaparecidos em Nova York, com as suas fotos colocadas em todos os lugares, temos a “Kamera”:

“I’m counting on
A heart I know by heart
To walk me through this war
Where memories distort”

Ah é, ainda temos a “Poor Places”. No final dessa música, uma mulher repete a frase “Yan-kee, Ho-tel, Fox-trot” várias vezes. São códigos usados em rádios de curta frequência, com significados implícitos, similares aos “Architecture”, “Arts”, “Law” e “Politics”, utilizados via e-mail pela rede Al Quaeda no ataque, que significavam respectivamente Torres Gêmeas, Pentágono, Capitólio e Casa Branca.

Ah, um detalhezinho: a banda tocou todas essas músicas em shows nas semanas que prosseguiram o 11/9. Agora imagina o sentimento e a emoção que as músicas liberaram no público. Né.

Tá bom, tá bom, é muita suposição pra um único post. Até a capa pode ser uma referência às torres, não é preciso muita imaginação. Mas o que fica certo é que o “Yankee Hotel Foxtrot” é um álbum excelente e muito bem arquitetado, com uma riqueza de instrumentos e sons variados, e é um ótimo exemplo de como algo extremamente bom pode não ter o seu reconhecimento devido ao pensamento fechado das gravadoras. É um álbum único com uma história única em um contexto único. E de quebra é um dos melhores da década passada. Só isso.

Farows Cambada! =D

P.S. Hoje faz 6 meses que terremotos, tsunamis e um acidente nuclear atingiram o Japão. E faz 16 anos do CD “The Great Escape” da banda britânica Blur. Só pra lembrar.

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